5.31.2011

31 de Maio de 1819




























…O odor das folhas verdes e de folhas ressequidas, da praia e das pedras escuras do mar, e de palha no celeiro,
O som das palavras expelidas de minha voz aos remoinhos do vento,

Alguns beijos leves, alguns abraços, o envolvimento de um abraço,
A dança da luz e a sombra nas árvores, à medida que se agitam os ramos flexíveis,
O deleite na solidão ou na correria das ruas, ou nos campos e colinas,
O sentimento de saúde, o gorjeio do meio-dia, a canção de mim mesmo erguendo-se da cama e encontrando o sol…

Canto de mim mesmo, Whitman, Assírio & Avim, 1992

Saudação a Walt Withman, por Álvaro de Campos


A imagem é do fotógrafo americano
George Collins Cox, 1887, Nova Iorque, durante uma sessão de fotografia que resultou em sete retratos, sendo este o favorito de Whitman. Autor da também conhecida foto de Henry Ward Beecher.

5.27.2011

tired




















Ando cansada. Durmo mal. Os sonhos são povoados de conversas e afazeres do dia seguinte. Acordo cansada. Fico mais um bocado na cama a ganhar coragem e a tomar consciência que ainda tenho tudo para fazer. Permito-me ainda a alguns pensamentos antes de um segundo despertar. Permito-me a algumas indignações, e a algumas vontades.
Dou por mim com outro livro nas mãos, também este vindo do Brasil. Quem me dera poder escolher para a página infantil do DA livros de outros mundos, de outras culturas. Ainda mais quando a palavra de ordem é a multi-pluralidade e no entanto vê-se cada vez menos o respeito às diferenças pessoais e culturais.
Gostava de poder mudar a página, sem ainda ter um conceito muito concreto. Aborrece-me ter de “mendigar” desenhos quando o mais natural é, que, fossem as crianças a enviá-los.
Mas quando a relação entre as pessoas passou a estar à distância de clique, é normal que isso não aconteça. Os correios são uma espécie de aves de rapina que anunciam cadáveres, melhor dizendo contas para pagar. As cartas perderam-se – obrigada Paula pelas tuas cartas –, volto a dizer aborrece-me “mendigar”.
Chico Rei, escrito por Renato Lima e ilustrado por Graça Lima (irmã), vencedora de inúmeros prémios de ilustração, (co-autora do blog Capa Dura em Cingapura), fala-nos da oportunidade de dialogar com os jovens sobre a nossa formação cultural, forjada nas relações entre etnias e nas suas relações conflituosas.
No caso do Brasil na relação entre indígenas, brancos europeus e negros africanos, entre fé e sincretismo, que estão na origem dessa imensa força criativa, presente na música, literatura, dança e festas populares.
É engraçado que a terceira ilustração, podia ser numa qualquer parte do nosso país. E não se trata de revivalismos, mas de um Portugal que eu ainda encontrei quando nasci. Afinal não somos tão diferentes assim.
A foto das andorinhas pertence ao blog  A vida dos meus dias

5.26.2011

glass




























Porque me apetecia ter estado no Porto

Einstein on the beach

"Two lovers sat on a park bench with their bodies touching each other, holding hands in the moonlight.

There was silence between them. So profound was theire love for each other, they needed no words to express it. And so they sat in silence, on a park bench, with their bodies touching, holding hands in the moonlight.

Finally she spoke. "Do you love me, John ?" she asked. "You know I love you. darling," he replied. "I love you more than tongue can tell. You are the light of my life. my sun. moon and stars. You are my everything. Without you I have no reason for being."

Again there was silence as the two lovers sat on a park bench, their bodies touching, holding handls in the moonlight. Once more she spoke. "How much do you love me, John ?" she asked. He answered : "How' much do I love you ? Count the stars in the sky. Measure the waters of the oceans with a teaspoon. Number the grains of sand on the sea shore. Impossible, you say. Yes and it is just as impossible for me to say how much I love you.

"My love for you is higher than the heavens, deeper than Hades, and broader than the earth. It has no limits, no bounds. Everything must have an ending except my love for you."

There was more of silence as the two lovers sat on a park bench with their bodies touching, holding hands in the moonlight.

Once more her voice was heard. "Kiss me, John" she implored. And leaning over, he pressed his lips warmly to hers in fervent osculation...


Fotografia de Steve Pyke, mais duas: Keith Richards, e esta porque gosto de Michael Caine. Em boa verdade gosto de muitas, muitas mais

5.25.2011

cheiros




















Depois de alguma “publicidade” que fiz sobre uma lista de livros de autores brasileiros, a verdade é que não falei deles, não os mostrei, talvez pelo simples facto de estar numa fase de enamoramento. Deles. Como nos amores, no princípio dos amores, a vida passa-nos ao lado. E assim tem sido. Guardei-os para mim. À noitinha deixo-me abraçar pelas páginas, pelas palavras, histórias, imagens e pelos cheiros. O cheiro é estranho. Não por ser mau ou bom, mas porque são cheios de si. Permanecem em nós, em memórias silenciosas e subitamente despertam num amontoado de recordações.

Amazonas no coração encantado da floresta”, de Thiago Mello, e editado pela Cosac Naify, trouxe-me o cheiro do mar. Do meu mar.

Sete histórias recontadas no mesmo registo de quem fala a língua local, de quem vive lá, há mais de vinte anos, à beira do rio Paraná-dos-Ramos.
Andrés Sandoval, quem ilustra, traz para cada página a exuberância da Amazónia. Num registo que me lembra muito a Tarabooks.


Tucuxi dançarino, uma das histórias.

“Das histórias que guardo do boto tucuxi, prefiro a que me contou minha velha amiga Francisca Beltrão, morada de Barreirinha:
Era uma noite de festa no arraial do Lago de Sampaio. O baile no galpão coberto de palha já estava animado quando ele chegou.
Era um rapaz bonito, todo de branco e de chapéu de palhinha.
Dizem que não pode tirar o chapéu porque senão pulam peixinhos por um furo que ele tem na cabeça.
Pois bem: escolheu a cabocla mais formosa do salão e dançou com ela , a noite inteira, sem parar. Não falavam, mas ele não tirava os olhos dela.
De repente, pelo canto das corujas que se despediam das estrelas, se deu conta de que o dia começava a nascer. Largou da moça, saiu correndo e se atirou n’água lá do alto do barranco. No meio do salto foi desencantado , virando o boto que sempre foi. Porque boto só se encanta de noite.
– Ora, Francisca – comentei –, você está chovendo no molhado . Essa história eu a conheço igualzinha desde o meu tempo de rapaz.
– É, mas você não sabe do melhor. Eu vi, com estes meus olhos para ver de verdade, quando a moça enamorada também saiu correndo atrás do boto e se atirou n’água de roupa e tudo.
Nunca mais apareceu.
Melhor para ela. Hoje vive feliz, num palácio feito todo de madrepérolas, lá na fundura das águas, onde o tempo e o amor nunca se acabam.”

5.19.2011

coisas boas e outras nem por isso


























Confesso que há coisas que me tiram do sério, outras tiram-me ainda mais. A proliferação do acento agudo no A é uma delas. Custa-me ler posts com erros, mas quero pensar, sempre, que é uma gralha, que o dedo fugiu para a tecla errada.
Ontem não aguentei. Para espanto do Manel, que, não só não esperava o meu ataque de fúria, como ter pegado na primeira coisa que escrevesse e ter desatado a rasurar o livro dele.
Se o tempo ainda estivesse para “fazer lume”, não teria hesitado e lançava-o para a lareira.
Gosto de ler, mas sem a pretensão de saber escrever. Gosto de quem trata por tu as palavras e uma língua que também eu começo a não saber escrever.
Dou o que me pedirem sem sequer ficar com o sentimento de perda. Mas não gosto de emprestar livros, temo, vir a precisar deles. Gosto de os saber por perto. Mas mesmo assim muitos estão em casas mais ou menos improváveis. Improváveis porque, emprestei a um e foi parar a outro.
Também não gosto que me emprestem livros, porque gosto de tomar notas. Que sentido faz ler um livro com anotações de outros. Já perdi dois livros assim, melhor dizendo já perdi o mesmo livro assim, por duas vezes. O primeiro empréstimo foi a um grande amor. Foi ele que me pediu se podia tomar notas no meu livro e claro, não se nega isso a um grande amor. Mas nesse mesmo dia, decidi comprar um outro para mim. Já agora, falo de Uma História da Leitura de Alberto Manguel, que quando rapazinho lia para Borges já cego.
Voltei a emprestá-lo. A uma amiga. Com diria o provérbio à segunda cai quem quer…
LIsa Ekdhal, também há coisas boas

5.02.2011

recém chegado

Há um momento de medo, ansiedade, em que pegamos no "nosso" último livro e o abrimos. Medo de não estar bem impresso, do corte, do texto em cima das ilustrações. Medos. Depois ficamos felizes.
Ao folheá-lo damos por nós a pensar que teriamos resolvido aquela página de outra maneira. E ainda bem que é assim.
Sentimos uma dada estranheza. Aquelas páginas não são só nossas, nem do autor, mas sim de tanta gente que ao longo destes anos me tem acompanhado.

A Luisa sem saber entra de mansinho nesta coisa dos "meus livros" e entra quase desde os primeiros, sem intensão, mas permanece lá para sempre.
Num amontado de papéis lindíssimos onde me perco em leituras, sei, que ao chegarem mimos destes a casa, eu me enamoro deles. Também neste livro, tu, estás presente.

Os meus outros amores guardo-os em mim. 

e obrigada a um menino que me explicou tudo sobre dragões

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