10.30.2013

pereira-brava



o frio começa a chegar. aos poucos apodera-se das mãos e penetra-nos no corpo. o sol morno não chega para afagar.

ainda há tiques estivais que levam a parar o carro debaixo de uma árvore. ainda bem. 

a terra está pincelada de pontos pouco maiores do que uma noz.

a Pyrus bourgeana, ou pereira(o)-brava está ali há tanto tempo que o tempo encarregou-se de lhe dar um porte que não o dela. 

por momentos assemelhava-se a uma azinheira de tronco robusto e uma ramagem que queria tocar o céu. as árvores são como as pessoas parecem-se com quem gostam de estar. 

um fruto carnudo quase esférico emana o cheiro das pêras. alguns apodrecem por dentro na sua velhice. 

ninguém toma conta dela. palavras de quem a trata por tu. 

hoje, serve a sombra. e os frutos caídos de alimento a pequenos roedores.
se hoje já não há quem cuide dela que sejam os animais os dispersores da sua semente. 
como os filhos.

lembrei-me deste post de 2009

Elisabeth Ivanovsky




A propósito de um trabalho que o M. andou a fazer para a disciplina de Português, revisitámos alguns livros antigos. No decorrer da “pena”, dele, eu fiquei a namorar as ilustrações de Elisabeth Ivanovsky.

Elisavieta Andreevna Ivanovskaia nasce em 1910, na Moldávia, Rússia e aos 18 anos forma-se em desenho, pintura, gravura, figurino e cenografia. Em 1932 muda-se para a Bélgica e inicia o seu percurso na ilustração para a infância com Joris Minne, mantendo-se ligada ao teatro e ao desenho de figurinos com o escritor e dramaturgo Herman Teirlinck.

Ivanovsky colaborou com inúmeros escritores franceses e flamengos. Bestiaire des Songes, 1943, foi uma parceria com o escritor e marido René Meurant.

Entre 1940 e 1950 Ivanovsky e Meurant criaram uma série de livros de bolso para a editora belga Èditions des Artistes. (novamente reeditados)
Mas é a partir de 1937 que Ivanovsky começa uma longa e frutuosa colaboração com Marcelle Verité. Duas notáveis mulheres da literatura infantil trabalham juntas quase 50 anos, sendo o seu último livro lançado em 1985, Lili ladybug.

Magníficos são também os 23 álbuns da coleção Tip Tip série (1967-1970), sendo a sua última colaboração com a editora belga Desclée de Brouwer.

Cá em casa andamos deliciados com “Contos do Sol”  e “Contos da Floresta” editados pela Verbo infantil em 1967 e 1968 respetivamente.

Vale a pena seguir a página da autora no FB

caiu a temperatura

é inverno e a árvore está nua. a neve fez dos ramos sublinhados. no entanto o pássaro é preto.

e viarco, claro

10.29.2013

vida de nós

porque não me canso de olhar para o desenho do Manel. quem o conhece sabe que ele é assim.
de palavras.

chocolate


o céu cinzento ameaçava chorar. 
continha-se. 
e permaneceu assim quieto, imóvel.
a casa pedia mimos. calor. e chocolate.



a receita nos 220º

10.28.2013

casa e muito mais






matar saudades significa na maioria das vezes morrer delas.
desde que a escola começou que ir a casa tornou-se complicado. as sextas à tarde sem aulas foram uma espécie de cereja no topo do bolo, mas um clube de pintura em que o M. insistiu em participar e alguns compromissos de última hora, obrigaram a adiar sempre a nossa ida.
cada vez mais acredito que a nossa casa é o sítio onde está o nosso coração.

fomos até à Biblioteca dos Coruchéus ter com a Catarina Sobral para fazer um atelier de linoleogravura. o resultado do trabalho deles é muito bom.

uma ida ao Chiado com um jantar cedo no Café Lisboa (Teatro São Carlos), permitiu um passeio onde as ruas fervilhavam de vida.

matar saudades significa morrer delas. porque há uma hora em que temos de voltar.

10.23.2013

Pantone 129C or the Autumn Leaves



Gianni Rodari




A 23 de Outubro de 1920 nascia Gianni Rodari (1920-1980). Com um percurso inicialmente ligado ao ensino, decide matricular-se na Faculdade de Línguas da Universidade Católica de Milão, mas cedo decide interromper e regressar a Omegna, cidade que o viu nascer.
Quando a Itália começa a participar ativamente na II Grande Guerra, Rodari é recusado por ter uma saúde frágil. Neste período conhece alguns membros do Partido Comunista Italiano, que não só, o leva à clandestinidade, durante a época da Resistência, mas também ao jornalismo.
Um jornalismo comprometido, perto das pessoas mais desprotegidas, marginalizadas, é um passo até à literatura. É no L’Unitá que descobre a vocação para a literatura infantil, onde nascem as suas primeiras “Filastrocche”, quadras e ladainhas ligadas à poesia popular italiana, mas carregadas de uma forte dose humorística.

Em 1970 recebe o prémio
Hans Christian Andersen.

Sem deixar o jornalismo, nem a escrita infantil, regressa ao seu percurso inicial. O contacto direto com as crianças permite-lhe consolidar a sua maior contribuição para a pedagogia com o livro “A Gramática da Fantasia”, de 1973.

“A presenteGramática da Fantasia - este parece-me o momento para aclará-lo definitivamente – não é nem uma teoria da imaginação infantil, nem uma coleção de receitas, uns “sabores” das histórias, mas sim, creio, uma proposta para por junto a outras tantas que tendem a enriquecer de estímulos o ambiente (casa ou escola) no qual a criança cresce. A mente é uma. A sua criatividade dever ser ser cultivada em todas as direções. As fábulas (escutadas ou inventadas) não são “tudo” o que serve à criança. O uso livre de todas as possibilidades da língua não representa mais que uma das direções em que pode expandir-se. Mas tudo está. A imaginação da criança estimulada para inventar palavras, aplicará seus instrumentos sobre todos os aspetos de sua experiência que desafiem sua criatividade. As fábulas servem às matemáticas como as matemáticas servem às fábulas” Gramática da Fantasia.
Nos seus livros Rodari propõe-nos um sem número de jogos linguísticos com a realidade.

Cá em casa mora “O que é preciso”, um livro onde a simplicidade do texto, um raciocínio dedutivo e as ilustrações de Silvia Bonanni são os ingredientes para tornar este livro fabuloso.
A narrativa desenvolve-se em torno de um objeto do quotidiano culminando no que há de mais profundo e mais perfeito na natureza.

Editado em português temos “O que é preciso” , “Baralhando histórias (Kalandraka), “Animais sem Jardim Zoológico”, “Alice entre as Gravuras” (Dinalivro), “Histórias ao telefone” e “Novas Histórias ao telefone”  (Teorema), “Era duas vezes o Barão Lamberto” (Martins Fontes)
E por último a “Gramática da fantasia”, claro, editado pela Caminho e que a capa fica tão longe da edição brasileira.


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10.22.2013

variações sobre o mesmo tema




Entre 1916 e 1925 Paul Klee, pintor e poeta suíço (1879-1940), fez cerca de 50 fantoches para o seu filho Felix, dos quais 30 ainda existem. Estes fantoches são um contraponto ao seu trabalho como pintor.

Klee recorria a materiais como tomadas, escovas, ossos e até cascas de nozes para executar as cabeças destes fantoches. Bonecos despretensiosos, alguns até grotescos, mas onde se sente o cunho dadaísta e até da escola Bauhaus, less is more .  Os primeiros são inspirados no famoso Kasperl, mas aos poucos, Paul Klee cria magnificas personagens com nomes e caraterísticas únicas como o “Barbeiro de Bagdá”, o “Palhaço Orelhudo” ou o “Esquimó de Cabelos Brancos”.

As primeiras roupas foram executadas por Sasha Morgenthaler (1893-1975), a famosa criadora de bonecas que receberam o seu nome (Sasha Dolls). Originalmente estas bonecas eram produzidas uma a uma, e só mais tarde em série, mas o seu grande objetivo ao criar estas bonecas (rapariga, rapaz ou bebé) era transmitir o olhar, o movimento e a inocência das crianças. Com o tempo Paul Klee acaba por assumir esta tarefa sozinho.

Este livro publicado por Hatje Cantz.

Ainda de nozes. Lembro-me da minha mãe abrir cuidadosamente algumas nozes e colocar uma nota dobrada em pedaços mil, para depois voltar a fechá-las, “metade inteira chora de felicidade”.

nozes e arandos


ontem a casa foi invadida por cheiros de outono e por mimos para quem ainda vive no campo.

o cheiro e sabor do manjericão deu lugar a sabores mais quentes e devolveu-me à cozinha, pelo menos ao forno.

e devolveu-me também ao 220º que há quase um ano estava a marinar. esta receita encontra-se por lá


10.21.2013

lápis e papel


















sento-me dentro de mim e espero. que as águas te devolvam


esta noite plantei uma flor no teu sonho

aquela árvore com muitas folhas


o fim de semana encheu-se de amigos, pequenos e grandes e todos os planos que eu tinha para três dias fora daqui com outros programas ficaram para trás.
realizou-se mais uns "escritos e escritores", promovido pela ACA e entre muitos nomes marcantes da nossa literatura houve espaço para aqueles que sonham um dia escrever.
quem conhece o manuel sabe que é um criança comunicativa, mas a exposição é coisa com que (ainda) não sabe lidar.
em boa verdade eu também não. claro que arranjamos maneiras de contornar isso, o que nem sempre é fácil para um miúdo de 9 anos.
há muito que anda às voltas com esta história. do que me lembro já foi escrita e reescrita de diversas maneiras, em diversos suportes.
no sábado foi assim:


Era uma vez uma árvore com muitas folhas. Chamava-se Folhada, mas as suas amigas chamavam-lhe apenas Folhas, porque ninguém conseguia ver o seu grande tronco de carvalho.
Vivia no parque de Monsanto em Lisboa, rodeada por montes de outras espécies de árvores, mesmo ao lado do rio Tejo.

Estava sempre acompanhada por árvores simpáticas, e ouvia pássaros coloridos e alguns esquilos, mas não os via, pois não via nada à sua volta.

Um dia pensou: “Tenho de resolver este problema!”

Quando lhe atiraram uma folha de jornal, perguntou em fúria:
- Quem me atirou esta folha de jornal!

Mas passados uns segundos, quando olhou para o jornal e leu o seguinte anúncio: “Formiga barbeiro ao domicílio, ligue 272793649 o verdadeiro nome Formibeiro.”

A Folhas pegou no telefolha e telefolhou para o Formibeiro.

Demorou algum tempo, mas o Formibeiro lá atendeu e, depois de ouvir a história da Folhas, disse:
- Que caso folhanense! Espera aí que eu já aí vou.

Passados uns minutos lá estava a formiga com os seus companheiros.
Pegaram na tesoura, no x-ato e no pente rápido e zás, zás, zás, zás….
Era o que se ouvia no parque de Monsanto.

Num abrir e fechar de olhos, a Folhas já via os pássaros, os esquilos e o rio.

E então. Feliz, disse:


- Nunca mais volto a deixar crescer as folhas!

ainda do fim de semana - uma oficina de pensamento critico e criativo com a Joana Rita Sousa. todos os dias e a toda a hora "eles" se questionam e questionam-nos. arranjar uma hora para o fazer e ter consciência disso é muito diferente. uma hora onde perguntas sucedem-se a outras perguntas.voasse

10.18.2013

Tolstoi e Pakhomov


 


Contos para Crianças de Leão Tolstoi (1828-1910) é um livro que reúne os melhores contos infantis deste grande escritor russo e ilustrado pelo pintor A. Pakhomov. Edições Ráduga, Moscovo, 1984.


Alexey Fedorovich Pakhomov (1900-1973), pintor da vanguarda russa, mestre em litografia e um excelente artista gráfico. Em 1915 a pedido de Zubov, ex-ator e um apaixonado pela arte, o jovem artista vai estudar para Petrogrado, hoje São Petersburgo.

A Revolução Russa (Revolução de Outubro) ocorrida em 1917 marca um ponto de viragem em diferentes áreas. Muitos são os russos que fogem para o México, privando com artistas de renome como Diego Rivera e Frida Kahlo.

Em 1919 nasce na Rússia um movimento estético-político que ficou designado por Construtivismo Russo. Uma arte que servia objetivos sociais. A construção de um mundo socialista, com igualdade de oportunidades.  Nessa altura dá-se uma fusão de duas escolas, a escola de pintura, escultura e arquitetura em Moscou Stroganov,  e a escola de artes aplicadas. Estas eram o centro de três grandes movimentos de vanguarda na arte e arquitetura: o construtivismo, o racionalismo e o suprematismo. Nasce assim a escola de Vkutemas, tendo como seu fundador Lénin. Uma escola que tinha como principal objetivo preparar artistas para o setor industrial.
De entre os seus professores destaca-se Lebedev, que marca o seu percurso na ilustração infantil, a que se dedica a partir de 1925, conferindo-lhe uma nova dinâmica, associando a imagem ao lettering.

As figuras humanas a grafite têm uma força e uma doçura que não consigo encontrar no desenho dos animais.

Por agora andamos de volta do traço. Dos sentimentos que transportam.
Um dia destes partilhamos um conto.

O que o M. já viu. O Centro Cultural de Cascais acabou o ano (2012) com a exposição “Vanguardas Russas
as flores nascem no mar. depois rompem a terra.

10.17.2013

admirável mundo de aldous huxley








Os dois corvos (The crows of Pearblossom) é a única história infantil escrita pelo romancista Aldous Huxley (1894-1963). Escrito para Olivia de Haulleville, sobrinha, que passava grandes temporadas com o casal Huxley na sua casa em Llanon, no deserto da Califórnia.
Olivia muda-se com os pais para Pearblossom e é onde a família se junta por alturas do Natal. É em 1944, num desses natais, que Huxley escreve esta história, e que durante anos ficou esquecida. Nessa altura Olivia pede-lhe que ele a ilustre e uma das duas cópias, a de Olivia, acaba por perder-se num incêndio que destruiu a casa do escritor.
Só em 1967 e já depois da sua morte em 63, é que é publicada. A segunda cópia entregue a uns vizinhos de Olivia ainda resistia ao tempo.

Publicada originalmente pela Random House, Inc com ilustrações de Barbara Cooney conta-nos a história do Sr. e da Sra. Corvo cujos ovos nunca chegam a eclodir porque uma cascavel, com quem partilham a árvore, come-os. Após 297 fracassos, os dois corvos são ajudados por um mocho que disfarça uma pedra com lama, conferindo-lhe a textura de um ovo. Dois ovos são colocados no ninho e mais uma vez a cascavel engole-os. A dor lancinante provocada pelas pedras leva-a a contorcer-se de tal forma que fica presa a um ramo.
Depois disso a Senhora Corvo chocou mais quatro famílias de dezassete crianças e usa a cobra como estendal onde pendura a roupa dos pequeninos.


A primeira edição tem as deslumbrantes ilustrações a preto-e-branco e verde de Barbara Cooney (1917-2000). Cá em casa mora uma outra edição. Esta, da D. Quixote, com as fabulosas ilustrações de Beatrice Alemagna. Sim e a primeira edição está na minha wishlist

nem sempre o que parece é



porque gosto

10.16.2013

passagem de testemunho



há muito que o M. me namora para lhe comprar umas canetas especiais para poder fazer os seus desenhos de Manga ( 漫画).
confesso que com um atelier cheio de materiais de pintura tenho-me mostrado um bocado forreta, mas em boa verdade o Manuel não tinha livre acesso a todos eles.

tudo começou com uns exercícios de matemática, representação de ângulos, cálculo e soma das suas amplitudes e eu senti-o pouco à vontade com o compasso. 
o compasso não tinha a delicadeza e a harmonia de uma bailarina. ficando longe de um "sissone". 
é estranho a percepção das dificuldades das crianças, porque aquilo que tomamos por certo e fácil traduz-se neles em falta de prática. Eles são capazes, nós é que já não nos lembramos que passámos pelo mesmo processo de aprendizagem, o que me leva a questionar o programa de ensino (hoje não é o dia).
além disso percebi que o "rotring" dele era uma espécie de sucedâneo dos compassos "rotring" cheio de folgas e com poucos pontos de afinação.
confiei-lhe o meu rotring. sim, ainda não fui capaz de lhe dar o "kern". nesta passagem de testemunho ofereci-lhe as minhas art pen. hoje, temos mãos de carvão.


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