5.29.2014

GRANTA

Com a terceira edição portuguesa na rua, a GRANTA ganha neste número um peso ainda maior. centrada na casa, nas memórias do que fomos e do que somos.

"Às voltas com o sortilégio das casas, eu que nunca construí  uma casa tento perceber como elas me construíram a mim. Preciso de factos, histórias, memórias. Sentada à mesa, a minha mãe estranha a pergunta: quero saber em quantas casas vivi. As mães são reservatórios inigualáveis de infância. Há nelas um arquivo profundo de instantes e episódios, de birras e façanhas nossas, trivialidades e revelações. Informações que nas famílias comunicantes se tornam lenda e que nas famílias silenciosas acabam como pequenos segredos. Só em ocasiões especiais se tem acesso a esse sótão onde ficou guardada a tralha do passado" (...)

neste trecho do texto de Ruy Belo que acompanha o editorial de Carlos Vaz Marques, há para mim dois pontos marcantes, a memória da filha que fui e a presença da mãe que sou.

questiono-me o que são dez anos na vida de alguém. acho que depende da intensidade como se vive a vida.

dez anos de quem é pequeno, parecem-me insuficientes quando sinto que passaram numa leve brisa de um verão quente.

para ele há a necessidade de preencher lacunas do que a memória não o permite recordar. aí sim somos esse reservatório inigualável de infância.

vinda de uma família que por vezes peca pelo excesso de comunicação, por anteciparem conversas que ainda estão a ganhar maturidade nas nossas cabeças, dou por mim a reflectir na frase que "em ocasiões especiais se tem acesso a esse sótão". já adulta dou por mim a ter revelações inesperadas.

(...) "os pormenores acumulam-se, avulsos. (...) Vejo o berço, mas não vejo a cama. Vejo partes mas não vejo o todo. Aquilo que recordo melhor é o que há muito foi convertido em palavras."(...)

um número desafiante e muito visceral, com textos perturbantes como o de Valério Romão, de como uma mãe pode viver para um filho mesmo na distância e poder enlouquecer com o a sua falta.

ou ainda de outro texto e que traz para aqui uma atualidade que me envergonha.

(...) o caso resolveu-se sem sangue mas com nódoas negras. No dia seguinte toda a gente se comportou como se nada se tivesse passado. Ainda não fora inventada a expressão violência doméstica. Nesse tempo ainda só existia a violência doméstica propriamente dita." (...)

cada vez mais apolítica pergunto-me como se vota em consciência num homem que defende que a violência doméstica não deveria ser um crime público, quando só na cidade de Lisboa o Ministério Público regista 25 casos por dia.


uma revista que a tenho mais por livro e que me tem acompanhado nas viagens e em alguns almoços solitários.

5.27.2014

azul às cores



O dia em que os lápis desistiram é o mais recente livro de Oliver Jeffers traduzido para português e como tem sido hábito pela Orfeu Negro sob a chancela Orfeu Mini.

Uma Orfeu Mini que nos tem enchido as medidas em cada uma das suas edições.

Confesso que encomendei para NÓS os últimos três livros da Orfeu e que nos têm acompanhado por estes dias.

É impossível olhar para um livro de Oliver Jeffers sem reconhecer alguns traços tão particulares deste ilustrador como o recurso ao lettering desenhado em que alterna caixas altas com caixas baixas.

Mas verdadeiramente surpreendente são as próprias narrativas.

no penúltimo livro incorri no risco dos meus lápis também dizerem BASTA!

mas permaneceram fieis até a este último.


"Um dia, na escola, quando ia buscar os lápis de cera, o Duarte encontrou um monte de cartas com o seu nome.
Todos os lápis decidiram escrever-lhe, reclamando: Basta!"

(...)
"Preciso de descansar!
O teu amigo estafado, 
lápis VERMELHO"

por aqui também tenho um nesse estado, mas parece que não há um vermelho como o dele ou simplesmente adaptou-se à minha mão.

(...)
"Se não começares a pintar dentro das linhas... vou mesmo perder a paciência.
O teu amigo certinho, 
Lápis Roxo."

é uma das cores que ainda permanece na sua quase forma original.

"O teu amigo completamente esgotado,
lápis cinzento"


por aqui o lápis preto é usado em todo o seu esplendor...

(...) "o teu amigo feliz, lápis verde"

e a minha relação estranha com os verdes.

ou mesmo com a gama de azuis e que me faz lembrar uma frase dita pelo M. ainda muito pequeno em que me pediu para pintar com azul às cores referindo-se a toda a sua gama.

e há os rosas...


e a lembrança de um tempo em que me escrevias cartas todos os dias


a reprodução tanto de textos como de ilustrações não foi feita na integra

5.22.2014

dos dias... a verde e branco

desde pequena que não me lembro de ter tido vontade de fazer outra coisa que não aquilo que faço.

em jeito de balanço e finalmente com todas as ilustrações entregues, posso dizer que começo a sentir de novo alguma tranquilidade.

em boa verdade não sei se é bom, porque parece que me afasto do síndrome de "Coelho da Alice".

i'm late, i'm late...

por estes dias um amigo receava que eu me desgastasse.

a única coisa que eu tenho medo é no meio desta azáfama perder de vista as coisas mais importantes.

a primavera trouxe os primeiros botões e os primeiros morangos.

depois de um inverno chuvoso, em que a terra quase cuspia água, fomos brindados com duas semanas plenas de sol.

as gardénias permaneceram assim, imóveis,
paradas no tempo, 
com os seus botões 
por mais de um mês.

olhei-as de manhã sob o sol que já se fazia sentir e permaneciam imóveis.

no meio de tanto para fazer, sim tenho medo de perder as coisas importantes da vida.

e nesse dia abriu-se o primeiro botão.

era importante?

era.

e eu não vi...

e o resto segue o seu ciclo natural

5.20.2014

tempo para os amigos

com o último livro (quase) entregue, permito-me a um dia para pôr o descanso em dia.

deste livro pouco mostrei, mas porque assim foi pedido.

deste livro faltam ainda as guardas.

de um outro livro que, como tantos do Afonso nos tem encantado.



o Afonso é assim como os pássaros, capaz de olhar de cima.

não por cima, porque quem o conhece sabe como é a sua natureza, talvez porque saiba olhar.

"Estava com vontade de te dar alguma coisa,
uma coisa especial (...)
(...) Por isso limito-me a oferecer-te
um pássaro a voar
ao fim da tarde.

Ali,

Olha."

O livro será lançado no próximo dia 24 de Maio, pelas 15 horas no Museu da Electricidade.
Da mesma editora e também no mesmo dia, um outro livro, "Parece um pássaro" com texto de David Machado e ilustrações de Gonçalo Viana.

ainda de ti, fiquei muito feliz pelo prémio da SPA, o livro que me acompanhou todo o mês de Novembro.
e digo-te que foi o livro que mais me marcou nos últimos tempos.

tal como na altura fui salva pela GRANTA, resta-me esperar por dia 23 para a poder comprar.

nas nuvens juntou dois amigos o Afonso e o João e o Carlos Vaz Marques por quem tenho uma grande admiração, não só pelo trabalho, mas porque um dia falou mais alto sobre o João Pombeiro.

5.16.2014

por dentro da África

conheci o Jorge há quase um ano, quando partilhámos o que sabemos fazer num outro trabalho.

gosto do Jorge, da maneira de estar, do sorriso meio tímido, mas sobretudo pela determinação que mostrou em levar este seu projecto a bom porto.



Na ficha de catalogação do Museu Nacional de Etnologia de Lisboa resume-se o invulgar objeto mas não se faz ouvir o seu som e toda a história, misticismo, querelas geográficas e percurso etnográfico de um dos mais importantes instrumentos musicais da África Ocidental. 

O kora é tão importante para esta região africana quanto desconhecido por nós, ocidentais. E enquanto um dos mais importantes repositórios destas culturas, a sua importância continua a ser transmitida pela oralidade, pela palavra do djidiu. 

 Motivo de orgulho de nações que nasceram de tribos sem fronteiras, existem discrepâncias sobre a origem deste instrumento, com os diferentes países a reclamarem-no como seu. Mas é durante o apogeu do Reino de Kaabú que muitas das lendas sobre a invenção do kora se cruzam. E Kansala, a cidade berço deste imponente reino, localizava-se numa área que atualmente pertence à Guiné-Bissau. 

E assim, quem pode reclamar o kora como seu? 

A resposta vem pelas perguntas que o documentário também coloca aos djidius guineenses, personagens quase míticos da sociedade guineense. Eles são tocadores de kora, mas também os guardiães e intérpretes da sabedoria dos antepassados, da história épica de África Ocidental e dos seus protagonistas. 

Mas porque aqui interessa não só a História do kora, mas as estórias que ouvimos na primeira voz que pulverizam a imaginação de quem as ouve, transportando-nos além tempo numa atmosfera única entre o real e a ficção. 

Uma viagem no espaço e no tempo, que começa por promover e registar o encontro do objeto de vitrine com o neto do seu dono original e avança, depois, para toda uma população que ainda reclama o kora como único e seu.

e um pedacinho de mim




Estreia amanhã dia 17 no Cinema City Alvalade às 21h30, mas ainda há uma sessão no dia 26 no ISCTE  às 18h00 com a presença de um músico de kora.

podem seguir na página de facebook

5.06.2014

o coração a transbordar

já falei da Luísa muitas vezes, mas não as suficientes para expressar o que é como pessoa.

a Luísa é tudo isto e muito mais.

a Luísa está atenta e só o facto de se lembrar de nós é uma benção.

a Luísa nunca pediu nada em troca e eu sinto-me tão devedora do seu carinho e fico sempre sem saber como lhe agradecer tamanho coração.

o livro dos bebés é-lhe dedicado porque em cada página revejo-a nos papéis


talvez há duas semanas recebia um embrulho em casa, claro cheio de magníficos papéis.

quando digo que a Luísa está atenta reflecte-se em pequenas coisas.

sementes de alfazema acompanhavam o que vai servir de fundo a muitos outros trabalhos.

a Luísa sabia deste post (janeiro), que me acompanhou por fevereiro e que em abril ainda se fazia sentir.

chegaram com a chuva, mas são dias felizes e agora já com sol

são dezenas de papéis que farei questão em fotografar um a um e serão colocadas imagens por aqui.

hoje dia 6 o carteiro deixava um pequeno envelope, que tem a particularidade de todos os outros, do remetente só tem o nome.

a Luísa faz as coisas de coração e não pede nada em troca.

a Luísa não se esqueceu dos meus anos e presenteou-me com um dos seus bonitos alfinetes de peito.

a Luísa escolheu o número 4 desta colecção provavelmente por ser o meu dia de anos, mas o que a Luísa não sabe é que esse número tem um significado ainda maior na minha vida.

eu nasci quando a minha mãe tinha 44 anos.

fui um engano.

ainda bem.

obrigada L.

5.04.2014

do meu dia

estávamos em 2003, 4 de maio, o primeiro domingo do mês. era Dia da Mãe. era o dia dos meus anos e soube que estava grávida. não podia ser melhor. estava cheia de mim. transbordava de mim mesma e por dentro dançava. foi o melhor presente.

dez anos depois acordas-me às 7.30, a um domingo, Dia da Mãe, dia dos meus anos e dás-me um presente, provavelmente sem a consciência de seres o meu melhor presente.

 é difícil expressar esta vivência a dois, porque é feita de tudo. de alegrias, tristezas, amor, sorrisos, choros, angústias, orgulhos, de construção, de mimo, desânimos, repreensões, de brincadeiras.

de um aprender diário.

de um aprender que é preciso deixar-te errar, que é preciso soltar-te deste cordão que te agarra a mim. um cordão que te prende à vida.

obrigada M.
o presente que escolheu, e não podia ter escolhido melhor, é do Senhor de Si. Um menino-fada.
doce. termo, e com o espírito livre há dez anos eu recebia pelas mãos de uma amiga uma menina-fada.
agora vivem perto um do outro

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